Usuários do Uber reclamam de queda na qualidade do serviço

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Carros mais antigos e menos limpos estão entre as observações, e os motoristas do aplicativo já se queixam de queda nos lucros

Pouco mais de um semestre depois da estréia do Uber em Porto Alegre, já há muitas reclamações: o serviço amigo do empreendedor, dos doces e da água fresca, que abriu a porta do carro para os passageiros e estabeleceu a principal concorrência ao serviço de táxi na Capital não é mais o mesmo.

– No início, todos os carros eram bem novos e superlimpos. Mas de um tempo para cá, tem alguns mais simples e com a limpeza nem tão impecável assim. Até água e balinhas alguns não oferecem mais – conta a gerente de projetos Karen Holz.

Usuária do Uber diariamente desde que a operação começou, em novembro, Karen percebeu as primeiras mudanças na qualidade do serviço há cerca de quatro meses. Carros mais modestos passaram a ser acionados com frequência. O perfil mais simples do veículo não foi o que mais chamou a atenção. O comportamento displicente de alguns motoristas – um deles, segundo ela, chegou a atender o celular enquanto dirigia – foi o que causou maior estranhamento.

Outros usuários entusiasmados da plataforma também relataram incômodos. O chef de cozinha Julio Cefis, que adotou o app depois de diversas experiências ruins com taxistas na Capital, foi surpreendido por situações desconfortáveis.

– Mais de uma vez pedi (o carro) em frente ao hotel e vi que o motorista estava no estacionamento. Aí, veio a pé me chamar. É chato, porque eu queria pegar no lugar em que eu estava, na rua. E não dá para pedir outro carro, porque mandam o mais próximo. Antigamente, não tinha isso – lembra Cefis, reforçando que ainda prefere o serviço em relação aos táxis.

O representante comercial Luiz Leal usa o serviço, em média, duas vezes por semana e acredita que o perfil dos motoristas também foi alterado. Para ele, os empreendedores deram lugar aos “quebra-galhos”.

– Não sei se é descaso ou despreparo, mas mudou o perfil. No começo, parecia um pessoal mais empreendedor, que queria atender bem. Hoje, tem mais motoristas que vieram para complementar a renda – opina Leal, defensor da plataforma:

– Ando de táxi eventualmente e é completamente diferente, porque muitos acham que estão prestando um favor, não um serviço. Além disso, a economia, nas corridas que faço, chega a 40%.

A impressão de clientes sobre as mudanças no Uber é confirmada por quem atua no aplicativo. Segundo os motoristas ouvidos pela reportagem, o aparente “sucateamento” do serviço seria pelo fato de o Uber ter afrouxado as regras para multiplicar o número de carros nas ruas.

– No início, era bem restrita a questão de veículos, depois começaram a liberar mais modelos. O número descontrolado de motoristas fez pessoas boas desistirem, porque não tem mais a mesma rentabilidade de antes. Para o Uber, quanto mais parceiros, mais lucro. Mas para os motoristas, quanto mais carros, menos lucro – conta um parceiro do app que ingressou na plataforma no ano passado para complementar a renda familiar.

O Uber não respondeu aos questionamentos da reportagem sobre a mudança nos veículos aceitos para atuar no UberX (de carros populares) nem informou quantos veículos circulam atualmente em Porto Alegre. Por e-mail, informou apenas que seriam 10 mil em todo o país.

O motorista que não quis se identificar conta que a flexibilização das regras teria feito com que alguns optassem por trocar os modelos que usavam inicialmente por carros 1.0 para reduzir custos.

– Até fevereiro, tinha gente trabalhando seis horas por dia e tirando R$ 4 mil. Agora, tem gente trabalhando 12 horas não consegue tirar R$ 3 mil. Hoje, o pessoal fala nos grupos de Whatsapp que não dá mais bala porque não vale mais a pena investir. O retorno está muito baixo – relata outro motorista vinculado à plataforma.

Descontentamento de motoristas

Com a concorrência mais acirrada, quem sobrevive do app tem partido para medidas mais incisivas para ganhar a clientela: os “pontos clandestinos” formados por alguns motoristas nas proximidades de universidades e do aeroporto, por exemplo, teriam surgido como forma de aproximar os profissionais da demanda. Parceiro do Uber desde o início da operação em Porto Alegre, outro motorista ouvido pela reportagem confirma que houve uma mudança no perfil dos colegas nos últimos meses.

Motoristas que reclamam de orientações do app, como abrir a porta para o passageiro, ou do “dress code” sugerido para a atuação, teriam aumentado desde que, entre outras coisas, os trâmites para aprovação do cadastro passaram a ocorrer quase exclusivamente pela internet.

– Antes, o pessoal controlava que nem colégio a média (da avaliação feita pelos clientes). Hoje, tem gente que fica fazendo piadinha no Whatsapp enquanto está com passageiro. Estão pelo dinheiro – observou o motorista, que acredita que os parceiros sentiram-se “traídos” pelo app:

– Acho que se criou uma revolta em parte dos motoristas por causa do descontentamento. No começo, achava que os táxis iam evoluir com o Uber. E o Uber é quem está baixando a qualidade – disse.

Por e-mail, o aplicativo informou que os parceiros são instruídos por meio de “vídeos tutoriais” e que “o motorista parceiro precisa manter uma nota acima de 4.6 para se manter na plataforma”. A média das notas na Capital, segundo o Uber, estaria entre as maiores do Brasil. “Motoristas parceiros que se envolvem em atos de violência ou que agem em desacordo com os termos de serviço do aplicativo também podem ser desconectados”, diz o texto.

 

 

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